Como estudar? · Depoimentos · Dicas de estudos · Para inspiração

Minha Preparação para a AGU: por Caio Fonseca.

PREPARAÇÃO

​​Atendendo com muito prazer ao convite da amiga Natália, escrevo um pouco sobre a minha trajetória em concursos, bem como sobre a minha atuação como Advogado da União na Procuradoria-Geral da União, fazendo-o com a expectativa não só de compartilhar um pouco da experiência adquirida, mas também de inspirar aqueles que se preparam para ingressar em uma das carreiras jurídicas, notadamente na advocacia pública.
​​Após me formar em direito, passei um ano advogando, até que, motivado principalmente pela vontade de ter uma remuneração melhor e mais estável, resolvi que iria estudar para concurso. Como sempre tive uma certa independência financeira, não estava disposto a deixar de trabalhar para ficar somente estudando. Essa é uma decisão que tem inegável importância na preparação de qualquer um. Não existe certo e errado no que diz respeito à opção entre “só” estudar ou trabalhar e estudar. No meu caso, sabia que o fato de ter menos tempo para estudar diariamente poderia retardar um pouco a aprovação, mas ponderei que o fato de continuar tendo uma renda poderia aliviar a pressão por um êxito imediato. Devo confessar que, no subconsciente, o fato de conciliar os concursos com o trabalho era uma forma de me cobrar menos, e isso, em certa medida, ajudou-me.
​​Como a minha atuação no escritório era bastante intensa, chegando a exigir, não raras as vezes, trabalhar no final de semana, aceitei o convite de um amigo para trabalhar na assessoria de um desembargador do Tribunal de Justiça do RN, o que me garantiria um pouco mais de tranquilidade para estudar. Não foi uma decisão fácil, sobretudo porque eu estava começando, embora de forma ainda tímida, a crescer na advocacia, de modo que largar o escritório para exercer um cargo comissionado, sujeito à livre exoneração, era um risco à própria estabilidade que eu tanto buscava. Contudo, ao longo do meu relato e de tantos outros colegas cujas trajetórias já foram compartilhadas por Natália aqui no site, vocês verão que o “concurseiro” é obrigado a tomar decisões o tempo todo, não havendo espaço para o comodismo na vida de quem quer passar em concursos de alto nível.
​​Pois bem. Já trabalhando como assessor no TJRN, com tempo não em excesso, mas suficiente para estudar, era hora de começar a meter a cara nos livros. Sim, era hora, mas o tal comodismo que mencionei há pouco me contaminou e eu demorei pelo menos um ano para criar vergonha na cara e escolher um concurso para estudar.
​​Abro aqui um parêntese para tentar justificar um pouco dessa inércia e, ao mesmo tempo, chamar atenção para um vício que acomete boa parte dos “concurseiros”: a espera pelo “edital perfeito”.
​​Quando resolvi estudar para concurso, mirava a Procuradoria-Geral do Rio Grande do Norte, e isso por várias razões, que passam pela possibilidade de conciliar com a advocacia privada, com o fato de remunerar muito bem e, ainda, de poder morar em casa. O concurso da PGE/RN foi uma lenda por vários anos, daquelas que todo dia alguém fala que o edital vai sair mês que vem. O último concurso havia sido em 2002/2003 e a defasagem no quadro era notória. Entretanto, as dificuldades financeiras e orçamentárias do estado protelavam o concurso mês a mês e, com isso, o meu start nos estudos também ia sendo postergado. Esse foi um dos grandes erros que eu cometi, sem sombra de dúvida.
​​Primeiramente, não se estuda para um concurso de alto nível somente após a publicação do edital. A não ser que você seja um gênio indomável do direito, é pouquíssimo provável que você obtenha êxito nesse tipo de certame começando a estudar somente após a marcação das datas das provas. Em segundo lugar, essa espera pelo “edital perfeito” pode fazer você perder inúmeras boas oportunidades ao longo da sua preparação.
​​Não estou a dizer que não se deve dedicar-se àquele concurso que se sonha ou que não se deve se guiar pela vocação, muito pelo contrário. O que realço é que, enquanto nos propomos a estudar para concurso, devemos preocuparmo-nos somente com aquilo que está ao nosso alcance. A nossa missão é estudar e estudar muito, para estarmos minimamente preparados para o “edital perfeito”, que muitas vezes pode demorar anos para sair, fazendo com que abracemos as oportunidades que venham a surgir ao longo do caminho. Quantos e quantos relatos não ouvimos de pessoas que esperavam determinado concurso, passaram em outro, e são plenamente realizadas nas suas carreiras? Ou mesmo de pessoas que, estando preparadas, passaram em concursos que não eram os dos seus sonhos, mas tiveram, a partir da aprovação, a tranquilidade para continuar estudando com muito menos pressão para a almejada carreira?
​​Parêntese fechado.
No início do ano de 2014, inscrevi-me no concurso para a Procuradoria do Estado do Piauí (PGE/PI), cuja prova objetiva aconteceria logo após o término da Copa do Mundo do Brasil. Confiando-me na sorte e na unção pelo Espírito Santo, estudei absolutamente nada para essa prova. Vivi intensamente o período pré/durante/pós Copa do Mundo, fui a vários jogos, assisti tantos outros pela televisão, bebi, comemorei, chorei após a vergonha que passamos contra a Alemanha, enfim, fiz tudo, menos estudar. A fatura veio na conferência do gabarito da prova da PGE/PI. Levei um 7×1 da prova e acertei menos de 50% das questões, mas aquela viagem à Teresina presenteou-me com uma das mais importantes lições que carreguei durante a minha trajetória. Essa lição é de uma singeleza magnífica: se você não estudar, você não passa. Por mais clichê que pareça a frase atribuída a Tiger Woods, ela representa a mais pura verdade: quanto mais você trabalhar, mais sorte você terá. Eu não conheço uma só pessoa que passou em concurso de alto nível contando exclusivamente com o fator sorte.
​​Voltei do Piauí com um medo terrível do futuro. Sim, essa foi a única vez em que pensei que passar nesses concursos seria tarefa impossível. Ao mesmo tempo, voltei com uma admiração incrível por aqueles que conseguiram acertar, por exemplo, 80% daquela prova “impossível”. Eu voltei disposto a fazer por onde ser uma dessas pessoas.
​​A prova da PGE/PI foi no final de julho e no dia 03/08/2014 eu comecei a efetivamente estudar, também bastante estimulado pelos boatos, cada vez mais fortes, de que o tão sonhado concurso da PGE/RN estava para finalmente sair.
​​De fato, no dia 01/09/2014 saiu o bendito “edital perfeito”. Perfeito por vários motivos, já que veiculava o concurso que eu realmente queria, era relativamente simples (poucas matérias para o padrão, com grande enfoque nas matérias que eu mais gostava) e tinha um tempo razoável até a prova objetiva (salvo engano, pouco mais de três meses). Porém, como nem tudo está ao nosso alcance e os desígnios divinos são incompreensíveis aos humanos, o “edital perfeito” veio na hora mais inoportuna possível: o meu sogro, pai da minha esposa (namorada de 8 anos à época), que havia descoberto uma doença gravíssima em abril, apresentava, dia após dia, uma piora no seu quadro de saúde que conduzia ao completo desolamento de toda a família, e eu, claro, não tinha como ficar imune a todo aquele problema.
​​Tentei, de todas as formas, compatibilizar o meu estudo com a dor e o sofrimento pelo qual estávamos passando, mas era tormentoso sentar para estudar a noite e abstrair o que estava acontecendo. Era impossível, na verdade. Quantas e quantas vezes eu passei horas com a mesma página de livro aberta, buscando concentração em meio ao meu próprio sofrimento e ao sofrimento da família da minha namorada; tantas outras, especialmente em dias nos quais as notícias eram péssimas, eu sentei para estudar e apenas chorei? E quanto eu também não me cobrei uma posição mais altruística, no sentido de que qualquer concurso, naquele momento, era sem importância? Eu sofria por achar que querer estudar era uma posição egoísta e individualista.
​​De toda forma, na medida do possível, tentei mergulhar nos livros, resumos, apostilas, informativos e questões. Tirei férias do trabalho nos 15 dias que antecederam a prova objetiva, saí dos grupos de WhatsApp, passei a otimizar meu tempo estudando em qualquer hora que tivesse livre, reduzi substancialmente os momentos de lazer, enfim, realmente mergulhei de cabeça no edital, mas sempre me cobrando uma presença maior ao lado da minha namorada e de sua família.
​​Fui à prova objetiva ainda muito verde, sem muita confiança, mas com esperança de que, tendo dado o meu melhor, pudesse pelo menos passar da primeira fase. Consegui. Passei para a segunda fase, mas numa posição muito atrás das vagas previstas no edital (salvo engano, passei em 150º lugar e o edital previa apenas 10 vagas), o que não deixou de ser uma gigante conquista para mim. De toda forma, havia uma inevitável sensação de que, se eu tivesse começado a estudar com mais antecedência, poderia ter passado melhor colocado.
​​A segunda fase estava prevista para o final de fevereiro. Tinha cerca de 2 meses para estudar o suficiente para subir de posição no concurso, mas a vida pregou outra peça e, no início de janeiro de 2015, Deus levou o meu sogro. O concurso, que já não era a coisa mais importante para mim, passou a não fazer mais sentido. Eu só me importava em me consolar e, sobretudo, consolar minha namorada, até que, sem poder fazer muito, resolvi que iria, mais uma vez, fazer o que estava ao meu alcance. Minha meta passou a ser a aprovação no concurso, como forma de trazer alguma felicidade.
​​Tirei uma boa nota na segunda fase, mas ainda permaneci fora das vagas (perto da 80ª colocação). O fato de ter subido de classificação, contudo, continuava a me animar e, principalmente, a me estimular.
​​Na terceira fase, caiu um parecer extremamente polêmico, com uma chave de resposta mais polêmica ainda, e minha nota, apesar de novamente boa, foi insuficiente para me colocar nas vagas. Após as notas da terceira fase, estava posicionado em 39º lugar, salvo engano.
​​Na fase de títulos, um revés daqueles difíceis de aceitar (a banca desconsiderou a minha pós-graduação em razão da data da expedição do certificado), e isso não só me impediu de subir algumas posições (era esperado que eu subisse para 28º lugar), como me jogou para a 57ª posição. Os títulos, no concurso da PGE/RN, tiveram um peso descomunal.
​​A despeito da má-classificação final, é certo que, um pouco frustrado e com a sensação de que daria para ter passado melhor, eu estava satisfeito com o meu desempenho e aquela sensação do impossível já não existia. Ao contrário, a essa altura, eu já sabia que a aprovação era questão de tempo.
​​Ao término do concurso da PGE/RN, já estava inscrito e avançando no concurso da Procuradoria do Estado do Paraná (PGE/PR), que aconteceu durante o ano de 2015. Terminei o concurso em 90º lugar, mas, ao contrário da PGE/RN, essa foi a primeira aprovação em que a esperança de nomeação era clara. O quadro da Procuradoria é imenso e, tradicionalmente, os concursos chamam bastante gente.
​​Logo depois, fui também aprovado em concursos menores de procuradorias municipais do meu estado e assessor jurídico do Tribunal de Contas do RN.
​​Paralelamente, em meados de 2015, tanto a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), quanto a Advocacia-Geral da União (AGU), lançaram seus editais, o primeiro prevendo 150 vagas imediatas e o segundo, 84 vagas.
​​Aqui, a estratégia foi fundamental na minha aprovação em ambos os concursos. Estratégia, aliás, que é determinante para qualquer aprovação.
​​Os editais da PGFN e da AGU, embora fossem bastante parecidos quanto às disciplinas cobradas, tinham suas particularidades, como, por exemplo, o alto peso atribuído pela Esaf a disciplinas como direito tributário, financeiro e empresarial, e o baixo peso atribuído à direito internacional. Na PGFN, não era cobrado ambiental, enquanto a AGU costuma cobrar essa matéria em quantidade e nível razoáveis, assim como previdenciário, que era mais negligenciado na PGFN.
​​Foquei, então, no edital da PGFN, cuja prova aconteceria primeiro, e contei com o lapso de 15 dias entre as provas objetivas dos dois concursos para pegar as matérias que teriam sido escanteadas e que tinham alto peso na AGU. Consegui passar em ambas as primeiras fases e continuei adotando a mesma estratégia para a segunda fase, desta feita, apenas invertendo a ordem, já que as provas da AGU aconteceriam antes.
​​Fui aprovado nos dois concursos, após as provas orais, terminando em 37º lugar na PGFN e em 8º lugar na AGU.
​​Um fato curioso e que merece ser compartilhado diz respeito às provas discursivas da AGU.
​​Como muitos sabem, as provas discursivas da AGU foram aplicadas duas vezes, tendo em vista a anulação da primeira aplicação em razão de um problema com a energia no local de prova de Recife.
​​Eu tinha ido muito bem na primeira prova, embora um polêmico parecer na P2 não pudesse nos deixar absolutamente tranquilos com a aprovação. Quando a prova foi anulada, eu fiquei transtornado, assim como tantos outros colegas. A indefinição quanto às novas datas também gerava uma insegurança absurda nos candidatos.
​​Fui fazer a “nova” segunda fase bastante contrariado, mas não havia outra opção. Na P2, perdi um tempo enorme elaborando o Parecer e, num erro primário de dosagem de tempo, fiquei com apenas 5 minutos para responder à questão de ambiental que, sem sombra de dúvida, era a questão mais fácil da segunda etapa, estando a resposta, ipsi literis, na LC 140/2011. Resultado: tumulto na sala com os candidatos indo embora, fiscal falando o tempo restante de minuto em minuto, e eu simplesmente não achava os artigos que estavam sendo exigidos na questão. Escrevi qualquer coisa apenas para não a zerar. Para a minha gratíssima surpresa, praticamente fechei o Parecer e, no fim das contas, o que pareceu ser um erro idiota de controle de tempo (e, em certa medida, foi), garantiu-me uma excelente nota, que alavancou bastante a minha nota final. Moral da história: erros bobos todo mundo comete, até os que passam. Conversem com qualquer pessoa aprovada e escutarão histórias parecidas, portanto, não se cobre tanto por eles, até porque, só não erra quem não tenta.
​​Bom, galera, essa foi, em resumo (bem mais extenso do que eu gostaria), a minha trajetória até tomar posse como Advogado da União em 22/01/2017, após passar cerca de 2 meses como Procurador da Fazenda Nacional na Seccional de São Bernardo do Campo.
​​Como toda história, durante esses pouco mais de 2 anos de estudo efetivo, foram muitas as dificuldades e privações, vários os eventos sociais abdicados, inúmeras horas de estudo (sempre conciliando com o trabalho), etc., mas estejam certos de que eu faria tudo de novo. Estudar não deve ser um fardo para quem busca um sonho, porque, enquanto seres-humanos, somos naturalmente movidos por desafios e concretizações. Permita-se chegar ao fim dessa jornada com a sensação de que é merecedor do cargo sonhado e, sobretudo, da confiança que o Estado deposita em você. Ah, e saibam de uma coisa: após passar no concurso, as dificuldades não deixam de existir, elas apenas modificam-se. A investidura no cargo público não garante uma vida sem problemas, a menos não para quem está disposto a participar da construção de um mundo melhor. ​

9 comentários em “Minha Preparação para a AGU: por Caio Fonseca.

  1. que história descrita da forma mais verdadeira possível – da simplicidade descrita durante a pge-pi, do momento difícil e doloroso com o sogro na pge-RN (chorei) e da grande vitória, baseada em todo caminho, na AGU e PFN! Obrigada por esse depoimento simples e emocionante!

    Curtir

  2. Perfeito o depoimento. Obrigada Nathália por nos disponibilizar inúmeros relatos de aprovações.. É sempre bom renovar as energias para continuar na luta, estudando. Hoje foi um dia desanimador para mim. Programei tanta coisa para estudar/revisar/etc.. mas não fiz n.a.d.a.
    Aqui, desanimada, me deparo com esse relato cheio de positividade, me fez refletir que compensa seguir na caminhada. rs..
    Sempre achamos que “nosso” fardo é mais pesado que o do colega da frente, principalmente daqueles “já aprovados”, mas mal sabemos o quão árdua foi a caminhada dele também.. (com algumas exceções, claro, rs).
    Na verdade, todo mundo tem suas dificuldades/limitações, só falta sabermos administrar as oportunidades que temos e ter a paciência para esperar o momento que Deus nos reserva para ser o “nosso momento da conquista”.
    Mais uma vez, obrigada!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s