Relato do Procurador da República Everton Aguiar: aprovações e outras considerações.

O texto de hoje é do colega Procurador da República Everton Torres. Está maravilhoso, aproveitem para se inspirar! Segue o texto:

O estudo para concursos. Minhas observações de 10 anos como concurseiro aposentado e outras coisas aleatórias.

Sou servidor público a 11 anos. Comecei como agente penitenciário federal, hoje o cargo se chama agente federal de execução penal. Passei por outras carreiras como analista judiciário do STJ, Advogado da União e Defensor Público do Distrito Federal. Cada carreira me ensinou um pouco sobre o olhar do Estado em relação ao indivíduo (cidadão). Sou extremamente grato a Deus por ter exercido as três funções essenciais a justiça completando o ciclo como Membro do MPF.
Sempre trabalhei e estudei. Fiz tudo na base do empirismo. Na tentativa de erro e acerto. Muitas das ideias que irei expor levei tempo para assimilar e reproduzir.
Pois bem, sem dúvida alguma o recurso mais importante que temos é o nosso tempo. Tempo gasto não tem volta e não podemos comprar mais tempo. Cada um tem o seu tempo e cada um recebeu um tempo para fazer as suas coisas. Assim, com relação ao tempo de cada um, a primeira dica é nunca se comparar com ninguém. Sri Sri Ravi Shankar em sábias palavras disse “(…) Alguns se formaram aos 22 anos e esperaram 5 anos para conseguir um bom emprego. Outros se formaram aos 27 e encontraram o emprego de seus sonhos imediatamente. Alguns se tornaram presidentes de grandes empresas aos 25 e morreram aos 50, enquanto outros se tornaram presidentes aos 50 e viveram até os 90. Cada um trabalha com seu próprio fuso horário. As pessoas conseguem lidar com situações apenas de acordo com seu próprio tempo. Trabalhe com seu próprio tempo. Seus colegas, amigos, conhecidos mais jovens podem parecer estar ‘à frente’ de você; outros podem parecer estar ‘atrás’. Não os inveje nem zombe deles. Apenas estão em seu próprio tempo – e você está no seu. Você não está atrasado nem adiantado. Você está exatamente na hora certa”. (agradeço ao meu amigo Allan Mesquita por apresentar essa mensagem).
Então aproveite a jornada e não busque comparações com outras pessoas, pois cada pessoa é um universo, uma complexidade única e bela dotada de inúmeras variáveis, logo qualquer comparação sempre será injusta para alguém.

Segunda dica, qualquer resultado final será sempre uma consequência se uma série de fatores. Há uma frase atribuída a William Thomson, conhecido como Lord Kelvin (nosso homem do zero absoluto), supostamente disse o Lord que “o que não pode ser medido não pode ser controlado, e o que não pode ser controlado não pode ser melhorado”. A questão é o que isso tem haver com meu processo de estudo. Eu digo que tem tudo.
Você precisa saber onde acerta e onde erra (matéria). Você precisa saber o que acerta e o que erra (conteúdo da matéria). Já ouvi uma pessoa dizer que ela dominava direito administrativo apontando a matéria como um pilar de força. Todavia, em concursos posteriores a mesma pessoa disse que só não passou, porque não foi bem em direito administrativo. Isso é uma incongruência, porque não foi cobrado em um concurso o direito administrativo argentino e no outro o francês, em todos foi cobrado o direito administrativo brasileiro e a pessoa não foi bem, e o que isso quer dizer? Quer dizer que ela não tem esse domínio todo que ela acredita que possui sobre a matéria. Direito Administrativo possui diversos conteúdos como atos, contratos, responsabilidade civil, intervenção do Estado no Domínio da Propriedade, Licitações, entre outros conteúdos, fora uma biblioteca de leis que sempre são cobradas.
Eu, por exemplo, percebi que era muito bom em atos, contratos, licitações, PPPs, Consórcios, Lei 8112, Lei 9784, porém serviços públicos, intervenção do Estado na Propriedade e outros conteúdos, quando caiam nas provas era pancada na nota. Logo, eu era bom em parte do Direito Administrativo e não em Direito Administrativo. Muita gente comete o mesmo erro.
O que fiz que deu muito certo para mim. Passei a monitorar meu desempenho nas provas. Os conteúdos das matérias que eu errava ou acertava na “bicuda” eu corrigia, porque era necessário entender a resposta correta. Estudava muito para entender e não errar o mesmo tipo de questão novamente.
Outro ponto que percebi. Um ponto de direito administrativo ou constitucional vale igual a um ponto das matérias ditas secundárias (consumidor, econômico, financeiro, empresarial, ambiental, previdenciário, etc). Outra coisa que percebi é que é mais fácil fechar a prova das matérias secundárias que das matérias principais. Então passei a estudar muito estas matérias para ter um desempenho de forma que elas não prejudicassem a nota e para minha surpresa usualmente eu acertava todas as questões delas o que me fez começar ir para as segundas fases dos concursos de carreiras jurídicas.
Então aprenda a medir seu desempenho. Identifique nas matérias o que você de fato sabe e o que não sabe para você estudar aquilo que não conhece. Esse fenômeno é natural, porque sempre que nos dispomos a fazer algo o fazemos do início, por isso todo mundo é fera nos primeiros títulos da CF-88 e poucos já leram o ADCT.
Dessa forma, a segunda regra é aprenda a medir seu desempenho, porque se você for capaz de fazer isso será capaz de melhorar.

Terceira dica é uma dica de ouro e nunca podemos esquecer dela. Ninguém vence sozinho. Sempre alguém lutou de alguma forma conosco e de alguma forma participou dessa vitória. Quando paramos tudo para estudar com afinco para um concurso difícil sacrificamos um tempo precioso ao lado das pessoas que amamos. Algumas delas não entendem o processo. Nós sabemos a importância dele (o processo de estudo), mas não podemos impor essa necessidade para as pessoas importantes de nossas vidas. O que quero dizer. Tire um tempo na semana para dar atenção a essas pessoas. Você está na medida do possível entendendo a situação dessa pessoa amada e colaborando para que ela entenda a sua situação. O amor é importante para nossas vidas, o amor do companheiro ou companheira, dos pais, irmãos, amigos, animais de estimação, etc. Digo o amor em sentido amplo. Sem dúvida nenhuma ele é fonte de energia, inspira e nos ajuda a manter o foco.
Com relação a esta dica, é importe destacar que quando nos fechamos demais nos estudos e deixamos de viver para qualquer outra coisa pode acontecer com você um fenômeno que batizei de “estafamento”. Você não rende mais, você não consegue mais estudar, você trava, não consegue progredir, apesar de saber o que precisa ser feito você não consegue fazer, porque o excesso do assunto na sua vida e a falta de outros momentos provoca um esgotamento mental. Isso aconteceu comigo na 2ª fase do MPF do 27ª. Não conseguia estudar para prova. Eu estava esgotado, porque minha vida era apenas trabalho e estudo.

Quarta dica, cuide de seu corpo. Não deixe de fazer atividades físicas, porque você está estudando. Se pesquisar um pouco verá que a prática saudável de exercícios físicos auxiliam no desempenho intelectual. Cuide da sua saúde. Seu corpo é o seu templo.

Quinta dica, aprenda a jogar as regras do jogo. Todo concurso cobra letra seca de lei. Desde concursos de nível médio a concursos de Procurador da República e Juiz Federal, então no se engane. Leia pelo menos 4 vezes o CPP, CPC, CTN (principalmente a partir do art. 96), CDC, CF/88 junto com o ADCT, CP e CC. Adote os seguintes intervalos de tempo para os dispositivos que foram lidos: primeira leitura, segunda uma semana depois, terceira um mês depois e quarta três meses depois.

Para ilustrar vou apresentar um pacote de leis de direito administrativo e constitucional de leitura obrigatória: DL 200, DL 201, DL 3365, Lei 4132, Lei 8112, Lei 8666, Lei 8987, Lei 9784, Lei 10257, Lei 10520, Lei 11079, Lei 11107, 12305, 12846, 13019, Lei 8625, Lei 9668, Lei 9882, Lei 1079, LC 35 e LC75.
Essa regra se estende para as demais matérias. Assim, leia a lei seca dos códigos e identifique as leis esparsas de cada ramo do direito que caem nas provas e as leiam. Adote esse hábito. Reserve um tempo para essa atividade.
Se o seu concurso prevê matérias de Direito Internacional e Humanos adote o hábito de ler tratados internacionais e cartas de direitos do Sistema Interamericano (mais o regulamento da Corte Interamericana) e do Sistema Nações Unidas. Leia o regulamento da Corte Europeia, leia a convenção europeia de direitos humanos.

Sexta dica estude para o concurso e não para uma fase do concurso. Certames complexos são compostos por diversas fases. As mais difíceis certamente são as provas escritas objetiva e subjetiva. Isso porque possuem mecânicas diferentes e usualmente são muito próximas umas das outras. Não há muito tempo entre o resultado da prova objetiva e a prova discursiva. Logo, penso ser muito difícil alguém que acabou de passar numa prova objetiva aprenda em pouco tempo a confeccionar peças processuais ou elaborar uma sentença judicial. Assim, a alegria da aprovação na 1ª fase em pouco tempo se torna desespero em relação a 2ª fase. Dessa forma, se vocês está focado em provas do ministério público faça provas de segunda fase para treinar. Da mesma forma se você estiver focado em provas do poder judiciário faça provas de 2ª fase de certames dessa carreira para treinar. Não deixe acontecer com você o fenômeno do cachorro atrás do carro que não sabe o que faz quando ele para. Não deixe isso acontecer com você na segunda fase.

Sétima dica, saiba planejar suas atividades e saiba se adaptar as novas situações. Você precisa estudar uma infinidade de matérias e textos. Mas você não fará isso de uma vez.
Seu objetivo é grande como um elefante. Ok. Então você sabe como se come um elefante? A resposta é um pedaço de cada vez. Assim, se você pensa que sua meta é distante ou inalcançável entenda que você precisa apenas dar um passo de cada vez em direção ao seu objetivo. Não importa a distância, o que importa é que cada passo dado é um passo a menos que falta.
Assim, não adianta, por exemplo, reclamar que não tem tempo. Não busque possíveis explicações para o fracasso, tenha foco no resultado útil e no que importa para sua preparação. Se você dispõem de 4 horas de estudo por dia seja grato por isso. Se você precisa trabalhar e estudar seja grato por isso. Você tem um trabalho e tem a chance de melhorar de vida, então não há o que reclamar e sim ser agradecido(a). Enfim, não importa quanto tempo você dispõe aprenda a ser grato por ele e a se planejar. Divida o tempo de forma que você estude em 70% dele novos conteúdos e em 30% você possa fazer revisões. Adote o modelo da curva do esquecimento previsto na quinta dica. Adotando esse modelo a informação tende a sair da memória de curto prazo e ir para a memória de longa duração, em outras palavras, tornar o conteúdo um conhecimento permanente.

Oitava dica, adote o princípio de pareto 80/20. Em grossas linhas o princípio de pareto trabalha com uma análise empírica que 80% das consequências são provocadas por 20% das causas. Por exemplo, 80% dos acidentes de trânsito são provocados por 20% dos motoristas ou 80% do que produzimos no trabalho consome apenas 20% do nosso tempo. Claro que a relação não é exata, mas uma relação aproximada. Dessa forma, levando esse conceito para os estudos 20% a 30% das páginas de um livro contém 80% das informações relevantes do mesmo. Então, aprenda a ler as obras jurídicas de forma mais dinâmica e inteligente, porque seu tempo é raro e escasso. Nada de ficar lendo livro de “capa a capa”.

Nona dica, leia e entenda os informativos. Assim, não basta ler é preciso entender o raciocínio jurídico apresentado no julgado, entender se a decisão é jurídica ou tem aspectos políticos (não podemos olvidar que tribunais superiores tem esse aspecto. O peso/responsabilidade de decidir no STJ ou no STF é imenso e por vezes é necessário pensar no impacto dessas decisões o que pode trazer traços políticos para o julgado). Se tiver dúvidas abra o voto e leia tudo. Leia o voto vencedor, leia a divergência se houver e procure outros julgados no mesmo sentido. Dessa forma, não basta “saber” como os tribunais estão decidindo, é necessário entender a fundamentação, o processo argumentativo, dessas decisões.

Décima e última dica. Várias pessoas já disseram que concurso é uma fila. Ao longo dos anos percebi que essa informação procede, ao menos em parte. De fato, percebi que existem dois tipos de candidatos: os que desistem e os que persistem. Quem persiste mais cedo ou mais tarde logrará sua aprovação, no seu tempo e no seu momento.
De mais a mais, é certo que existe a carreira com a qual sonhamos, mas sugiro manter a mente aberta, porque as vezes possa ser que a vida tenha pensado em algo diferente para você. Então nada de fazer apenas concurso para a carreira x. Esteja aberto a outros projetos.
Por fim, evite “criar expectativas”. Sonhar é diferente de criar expectativas. Sonhar é é deixar a mente em seu estado criativo, é se ver no futuro em certo lugar ou atingindo certo objetivo sabendo que é uma projeção que para a materialização exige a implementação de ações. Criar expectativa é projetar um acontecimento como se o mesmo de fato fosse ocorrer da forma como pensamos. Assim, não alimente expectativas, tenha cuidado ao viver a vida com a mente no futuro. Isso torna a pessoa ansiosa. Também não lamente pelo passado ou pelas escolhas do passado. É muito fácil julgar seu “eu” do passado quando se sabe o que aconteceria no futuro. Lembre-se das informações, ideias, maturidade, etc., que tinha quando tomaste a decisão naquela idade não são as mesmas de hoje. Assim, não meça o seu “eu” de antes com a “régua” do seu eu de hoje. Assim, tenha cuidado ao viver a vida com a mente no passado. Isso torna a pessoa depressiva. Alinhe sua mente no agora e viva o presente, apenas com um dedinho no futuro de forma que tenhas previsões sobre os resultados dos esforços legítimos praticados agora e não expectativas infundadas que não condizem com o que esteja semeando (essa demorou…). Respeite a lei universal de causa e efeito.

Essas são apenas algumas observações. Nada na vida é exaustivo. São apenas considerações que compartilho que em certa medida podem ser úteis a outras pessoas. Fiquem sempre com Deus.

Publicado por nataliaaglantzakis

Advogada da União. 27 anos. Brasília - DF.

12 comentários em “Relato do Procurador da República Everton Aguiar: aprovações e outras considerações.

  1. Excelentes dicas. Reforçam o que já se tem em mente e pratico.
    Também alertam para outros pontos não cogitados, como por exemplo, treinar para as fases seguintes.
    Não me adaptei quanto ao fato de fazer concursos para carreiras diversas. A linha de pensamento da defensoria é diferente da magistratura ou MP.
    Mas isso também deve ser uma questão pessoal.

    Enfim, grata pelas excelentes dicas e que Deus o ilumine sempre.

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  2. Adorei o texto, só faltou colocar um pouco mais da história pessoal do autor, mas a mensagem dele é muito rica e importante. Obrigado por compartilhar, nem sei como achei o blog, na verdade é a primeira postagem que leio. Vou buscar conhecer melhor teus conteúdo. Ganhou uma um leitor fiel (ao lado de Dizer o direito, o blog do Edu e foca do resumo.rs).

    Sei que que é muito chato corrigir texto alheio e muita falta de educação mas, com todas as escusas, na primeira linha do texto ele diz que “Sou servidor público a 11 anos.” Esse a, deve ser grifado com h, pois tem sentido de tempo transcorrido e pode ser substituído pelo termo “faz”. Só percebi isso pq é bem no início.
    Sucesso!

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